Quem são os Orixás?

Orixá é um fundamento sagrado. E sempre que formos estudar o sagrado, precisamos levar em consideração a sociedade na qual este está inserido. Cada cultura, cada povo, sempre tentou representar e explicar o Universo, o ser humano, sua origem e seu destino.

Quando usamos o nome "Orixá", estamos nos referindo ao povo Yorubá, um grupo etno-linguístico originário na África Ocidental, aproximadamente onde hoje se localiza o sudoeste da Nigéria, o leste do Benin e o Togo. Este povo, se organizava em estruturas comparáveis a cidades-estado ou reinos regionais (chegaram a formar impérios importantes com alto nível de desenvolvimento e urbanização).

Apesar de suas divisões internas, compartilhavam, além da língua, uma cosmogonia (narrativa que explica o surgimento do Universo e do ser humano) e uma mitologia. Essa mitologia era transmitida através de pequenas lendas que formavam uma narrativa épica, denominadas ítans, que até hoje contamos e recontamos em nossos templos sagrados.

Uma observação. Quando falamos em lendas, mitos, contos, ou qualquer narrativa épica, precisamos levar em consideração que há diferentes níveis de profundidade na sua leitura e interpretação.

Há um nível literal, onde o texto é lido como uma narrativa factual, concreta (o texto narra algo tal qual aconteceu), bem como um nível filosófico, metafórico, onde a narrativa é tida como uma ilustração de uma ideia abstrata, afim de facilitar sua memorização, transmissão e até mesmo sua compreensão.

A forma metafórica foi utilizada pelos mais diversos povos ao redor do mundo para explicar ideias complexas, através do mecanismo da analogia com o mundo concreto.

Voltando ao povo iorubá, este compreendia que, acima de tudo, havia uma força suprema chamada Olorumaré. Este era o responsável, mesmo que indiretamente por tudo que havia. Contudo, a criação de Olodumaré se deu de forma indireta, através dos Orixás funfun.

Os Orixás funfun (branco, em língua iorubá) eram os que existiam antes da criação e nela participaram de forma direta ou indireta. Diz a lenda (ou melhor, os ítans) que Olodumaré decidiu criar o mundo. Para isso, designou Obatalá, também chamado Orixa Nla (Oxalá). Obatalá desce ao mundo mas se distrai de seu objetivo ao se embriagar com vinho de palma. Olodumaré então designa Oduduwa para que conclua a criação. Por este motivo, os iorubás se intitulam "Ọmọ Odùduwà", ou "filhos de Oduduwa".

É importante lembrar que existem diversas versões para este ítan, mas seus pontos centrais são os mesmos. O importante é entendermos aqui:

  1. A criação não se deu de forma individual, mas em trabalho coletivo. Uma força inicia, a outra molda e consolida.
  2. Ela não é "perfeita" e isso faz parte do equilíbrio do Universo.
  3. A diversidade, tanto da natureza, quanto das forças que atuam, como até mesmo na humanidade, faz parte da criação desde sua concepção.

A criação em si foi apenas um início. O Universo deveria se expandir, se organizar e se manter com suas próprias forças, então criadas com ele e por ele mesmo. Assim surge uma segunda forma de Orixá, os ancestrais divinizados, ou Orixás Dudu (preto, em iorubá).

Em uma leitura no sentido literal, vemos aqui diversas lendas de seres humanos que, de uma forma ou de outra, de destacaram da humanidade em geral e, em vez de enfrentarem a morte, se divinizavam e se tornavam Orixás.

Ao aplicarmos a leitura metafórica e filosófica nas lendas, fica fácil identificar qual força da natureza que um determinado Orixá rege. Também se evidencia seu lado positivo, seu lado negativo (Orixá não é bom ou mal, nem perfeito), qual seu campo de força na natureza atua com mais intensidade, bem como a forma com que se relaciona com as outras energias.

Em boa parte da Umbanda e uma parte considerável das casas de Candomblé, a visão metafórica prevalece e o Orixá é então visto como uma força da natureza que a governa, equilibra e representa; sendo sua forma antropomorfizada uma alegoria para que possa ser melhor compreendida. Em outras, a visão literal, do ancestral divinizado, é a interpretação oficial.

Podemos então dizer, de forma simples e resumida, que (de acordo com a visão metafórica), um Orixá é uma força que pode preceder ou derivar da criação, tendo como fonte originária o Absoluto (Olodumarê).

Repare que ainda não falamos de uma figura polêmica, incompreendida e distorcida, porém onipresente, tanto na criação e no Universo, como nos mais variados terreiros: Exu (Orixá). Diferentemente de Ogum, Xangô, Yemanjá... onde temos ítans que ilustram sua "divinização", não há uma lenda que fale da origem de Exu como um ancestral divinizado. Da mesma forma, apesar de estar presente desde antes da criação, não é tido como Orixá funfun, como Obatalá, Orunmilá, Oduduwa.

Exu, como Orixá, é o próprio movimento da criação. É a tensão entre forças que se cria, para que a realização ocorra. Sem ele, não haveria nada, assim como é demonstrado em vários ítans de diversos Orixás. Se a estabilidade fosse absoluta, nada saía do lugar, nada aconteceria. Nem mesmo o próprio Universo...


Copyright - 2026. Todos os direitos reservados. É permitida a utilização deste texto em menções, desde que devidamente contextualizada, bem como seu autor e a fonte original citados de forma clara.